O nome das ruas

O nome das ruas
Aos quarenta e um anos, Nadir era velha o suficiente para ser tratada com paciência, e nova o bastante para odiar isso.
Alguém lhe ofereceu uma cadeira. Nadir rosnou qualquer coisa, e abanou com a mão, querendo espantar aquela sugestão. Ela fingiu que as pernas não doíam, porque não queria que ninguém insistisse, e ninguém insistiu, mesmo sabendo que era fingimento. Na Doca Alta, onde o povo de fora fazia negócios com os Muitos, ela sempre reagia assim, e era a única. Os outros não se importavam muito.
Os jovens carregavam, porque isso era função de jovem. Damião, o homem sem cheiro, tentava disfarçar a irritação com o cheiro da Mancha, mas seus lábios contraídos e a respiração curta a denunciavam. Era estranho aquele homem, um homem cujo cheiro não é de lugar nenhum, e por isso não estava em lugar nenhum. Nadir só lembrava que ele estava ali quando ele cruzava seu campo de visão ou quando falava algo.
Apesar disso, Damião era um dos melhores clientes da Mancha. Sempre pagava em dia, agradecia, tocava nos habitantes da Mancha e depois limpava a mão. Mas tocava.
— Damião, quer comer? — alguém disse.
— Não, obrigado.
Sempre recusava, e era cortês quando recusava. Os Muitos ficavam surpresos, não com a recusa, porque ele recusava sempre, mas porque era educado e os tratava bem. Damião não acompanhava a entrega, sinal de que confiava, e tinha os olhos perdidos entre os andaimes da colônia.
Uma saca de comida caiu no chão da doca e um rasgo espalhou os grãos pelo chão cinza. Damião olhou e anotou no caderno. Os Muitos correram até lá e se debruçaram, e comeram com pressa até a saca ficar vazia. Nadir se esforçou para ignorar a dor dos joelhos velhos. Damião desviou o olhar de volta para as construções vazadas à distância.
— Ao todo foram dez sacas — falou Damião quando os Muitos terminaram o trabalho.
Nadir assentiu e um colega espreitou pelas paredes vazadas do prédio. Outro se balançou numa viga e escalou para o andar de cima. Minutos depois o homem desceu da viga com uma bomba hidráulica nos braços, e Damião se sobressaltou com a descida, preocupado com o estado da mercadoria. Ele não fazia por mal, era costume de gente de fora se assustar, e Nadir o desculpou sem que ele precisasse falar uma palavra.
— Aqui — disse o homem, depositando a bomba na área de carga do caminhão. Ele escapuliu em instantes, e Damião não conseguiu rastrear para onde havia ido. Nadir riu disso.
Damião estendeu a mão e a cumprimentou. Pisou nas tábuas improvisadas que eram os degraus até a cabine do caminhão, e Nadir recuou diante do rangido irritante. Ele estacou, olhando para os prédios altos que pareciam inacabados, e sem olhar para ela falou, como quem sonha acordado:
— Como é que vocês acham as coisas aí dentro? — disse, apontando com o nariz o labirinto de ferro e concreto da cidade vertical.
Nadir deu de ombros, sem entender o que ele quis dizer. Damião subiu, ligou a máquina e sumiu. O cheiro da queima afastou os Muitos num raio de cinquenta metros por onde ele passou, menos Nadir, que já estava acostumada.
Era a última carga do dia e a garoa fina começava a cair, levando embora a combustão e renovando o cheiro da terra. Nadir saiu da doca, subiu dois andares de metal, agarrou-se numa barra e atravessou a passarela improvisada de tábua.
A garoa tornou-se uma chuva quente. Nadir atravessou um andaime que dava a volta num prédio de quatro andares e terminava num túnel de lona e piso metálico. O tamborilar das gotas no teto era relaxante, e uma fumaça quente e cheirosa se insinuou pelas narinas da mulher. Ela virou à direita, escalou três vigas diagonais em rápida sucessão, e dessa vez as pernas não doeram, porque os braços fizeram a maior parte do trabalho.
Por causa da chuva, muita gente se escondia, e Nadir viu um grupo de vinte amontoado num canto do segundo andar. No terceiro, era uma família de doze, de onde a fumaça vinha, e o cheiro ficou claro: era comida, quente e saborosa, mas ela não parou. Ficou pensando naquela comida durante o caminho todo. No quarto e último andar, ela subiu uma escada velha de ferro até a laje e aproveitou a chuva por um tempo. Uma ponte grande de chapas de metal erguia-se até o prédio vizinho.
Tinha as escadas e tinha as vigas. Nadir subiu pelas vigas porque há muitos anos as pernas já evitavam as escadas. Alguns andares depois, o chão estava bem longe e não se podia ver a multidão que fugia da chuva direito. Nadir chegou em casa sem saber que comida era aquela que viu cozinharem, e estava com fome. Ela abriu a porta de madeira velha e podre, sentiu o cheiro familiar de casa… E só isso. Nilo não estava lá.
A porta do vizinho abriu.
— Ele estava com a filha do Antônio — disse ele, e em seguida ofereceu um café.
Nadir não podia recusar sem ofender, e como era vizinho importante, daqueles que sabe tudo sobre a vida da gente, ela aceitou. Foram dez minutos naquela casa, onde ela ficou sabendo das últimas atividades do cunhado do vizinho. Quando era aceitável, saiu e foi para a próxima porta.
Na próxima porta, e nas três seguintes, disseram que ele estava com um grupo de amigos, depois que foi visto conversando com o síndico, e que comeu tarde acompanhado do Matim, o menino órfão que fazia bico de zelador. Em cada porta, ela parou por mais dez minutos, porque não se podia ofender ninguém. Em vez do café, que ela já havia tomado, deram biscoito, grão, e quando faltaram ambos, água. Nadir saiu do último vizinho sem saber nada de novo.
No fundo do bloco, no apartamento velho que ninguém visitava, a Tia dos Perdidos abriu a porta. O cheiro dali de dentro invadiu as narinas de Nadir sem pedir licença, nem desculpa. Ela soube na hora que Nilo não estava lá, e que tinha mais gente do que ela esperava. A mistura de cheiros apontava para lugar nenhum. A Tia, uma mulher de uns trinta e poucos anos, tinha os olhos profundos e cansados, e uma voz doce e firme.
— Eu não vi o Nilo hoje. Quer entrar?
Nadir hesitou na porta por um segundo e entrou. No corredor do apartamento dois meninos estavam deitados no chão, de bruços, jogando uma bolinha na parede e pegando com um copo branco velho. No outro cômodo ela ouviu o barulho da televisão e duas ou três vozes que não eram dos atores. Havia um amontoado de colchões erguidos no fim do corredor, em uma salinha pequena que servia de despensa.
— Você está dando conta, Tia?
A mulher sorriu como quem não entende uma pergunta. Ela estava prestes a responder quando uma criança chamou do corredor. A Tia se levantou, foi até ele e Nadir ouviu a voz doce sussurrar algo. Ela voltou e disse que estava bem. Nadir olhou para as crianças, depois para a Tia. Ela não disse nada a respeito.
Entraram na cozinha, onde a Tia ofereceu um bolo fofo pela metade.
— São quantos hoje? — perguntou Nadir, depois de aceitar o bolo. Pelas vozes deviam ser quatro ou cinco crianças.
— Dezenove.
A Tia ficou calada olhando para a soleira como quem espera um filho chegar para ajudar com as tarefas da casa. Ninguém veio, e Nadir também não disse nada.
— Eram dois, uns cinco anos atrás — e emendou: — Não é a primeira vez, é?
— Não, Tia. É a nona vez esse ano.
A mulher anuiu como quem aceita um fato. Nadir agradeceu e a Tia abriu a porta. Sete crianças estavam no corredor, escutando a conversa. Todas olharam para a porta aberta, menos uma. A Tia olhou por cima dos ombros de Nadir, sorriu e fechou a porta atrás dela.

Quando Nilo apareceu num andaime qualquer, perto da casa, era noitinha e Nadir já tinha sentido seu cheiro dois minutos antes. Ele estava sorrindo, os olhinhos brilhantes de alegria, cabelo sujo e meio úmido. E ileso.
— Você está bem?
O menino fez que sim com a cabeça, sem responder a pergunta principal. Nadir o abraçou, limpou suas bochechas sujas de graxa, conferiu o corpo e ofereceu comida. Ele recusou.
— Tô sem fome, vó.
— Nilo?
O garoto baixou os olhos e não encontrou as palavras para responder.
— Com quem você estava?
— Liz — ele disse. A resposta saiu decorada.
Nadir demorou meio segundo para entender. Uma frase formou-se pela metade em sua mente, sem que ela pudesse achar palavras para completar: O menino estava… O lado direito do corpo de Nadir ardeu em seguida, e ela sentiu o suor frio escorrer pelo pescoço, uma tontura súbita e um gosto metálico no céu da boca. Ela parou e escorou numa parede de lona, apoiando-se numa barra de ferro, e esperou passar. E passou. Voltaram para casa e não saíram mais durante a noite.

No outro dia, antes de sair, Nadir chamou Nilo na porta de casa. O menino sonolento ergueu os olhos para o batente, e viu do lado dele um símbolo pintado, vermelho como sangue, mas era tinta.
— Que lindo! — ele disse, erguendo-se na ponta dos pés para tocar a pintura. Nadir segurou a mãozinha dele e disse que faltava secar, que ele percebeu pelos rastros menores que escorriam das beiradas do símbolo.
Ela achou que era besteira, uma coisa sem sentido, e ela havia pintado apenas para saber se daria certo.
E não deu. Dias depois, Nilo demorou mais para voltar. Nadir foi buscá-lo na mesma rua, e chegou lá muito antes do menino. Ficou esperando uma hora, que se tornou duas, e quando ela ia desistir, Nilo apareceu num canto, projetando a cabeça por um vão entre as vigas como para averiguar o que havia dentro.
Um outro dia, dia de folga, Nadir levou o garoto para o térreo com o balde de tinta vermelho. Ela pintou outro círculo na parede de uma coluna de sustentação, e o menino achou lindo de novo. Passava uma vizinha por perto. Ela levantou os olhos por um segundo, reconhecendo o cheiro de Nadir e Nilo, estacou diante do balde e do pilar e começou a chorar.
Nadir se espantou e Nilo ficou quieto, observando a mulher em prantos. Ela perguntou por que a mulher chorava, e a vizinha deu de ombros. Não estava triste, não parecia estar com raiva, e não deu outro motivo. Ela só disse que nunca tinha visto aquilo e não entendia por que.
Nadir foi para a laje do prédio à noitinha, onde os vizinhos ficavam em torno de barris com o fogo crepitando a noite toda. Nilo tinha ficado em casa, brincando com o que sobrou da tinta. Os vizinhos estavam comendo, cada um com uma tigela velha de grão molhado, e cheirava bem para Nadir, que pegou sua porção do pote afundado no barril em chamas.
— Vi que você pintou a sua parede, Nadir — falou um deles, entre uma colherada e outra. — Ficou bonito. Está tudo bem?
A pergunta não encaixou com o elogio e Nadir hesitou por um segundo.
— Está sim, por que?
— Nada. É que fiquei sabendo que o Nilo sumiu duas vezes essa semana, achei que tinha algo a ver, mas deve ser besteira minha.
Ela desviou o olhar e assentiu com a cabeça, e não conseguiu achar palavra para continuar a conversa. Alguém repôs o grão na panela e falou para ela que logo mais estaria quente de novo.
— Você anda com uma cara tão cansada — Bete lhe disse, uma vizinha de quarenta e nove anos. Ela mesma não parecia tão bem. — O trabalho na Doca tá difícil? Eu sei que aquele povo de fora pode ser irritante.
Ela disse tudo sem dar margem para resposta, como se fosse uma só frase. Nadir quase defendeu os Intactos, mas a vontade passou rápido. Ela respondeu que estava tudo bem, que tinha sido uma semana movimentada, que Damião trazia as cargas certas e sempre na hora certa, nem antes, nem depois do combinado. Pegou uma tigela e quando terminou de comer se despediu, antecipando que mais tempo ali significava mais perguntas e comentários. Nadir entendeu que eles se preocupavam com ela, mas ela não estava nem um pouco preocupada. Ela sabia de um número que eles não tinham ideia, ou, se tinham, não queriam dizer: dezenove perdidos.
No domingo, ela reuniu em casa um grupo de vizinhas. Nilo brincava com a filha de Antônio no térreo. Eram três mulheres, além de Nadir. Sônia, Úrsula e Marta bebericavam o café morno e mordiscavam as iscas de grão molhado com a mesma frequência, como se tivessem ensaiado aquilo antes.
Nadir contou do símbolo vermelho na coluna, das duas horas de espera no andaime e da vizinha que chorou. As três escutaram sem interromper, e quando ela terminou, Sônia pôs a tigela na mesa ao centro.
— Uma marca só não serve. Ele tem que saber antes de chegar.
Ela já havia pensado nisso antes, e Nadir se lembrou do neto perdido dela.
— E quem é que olha parede? — Úrsula deu de ombros. — Eu subo esse bloco há trinta anos e não sei dizer a cor da minha porta, menos ainda do meu bloco.
Ficaram caladas. Marta molhou a isca de grão no café e não comeu.
— E o cheiro? — ela disse.
Nadir olhou para ela.
— Cheiro na tinta. Um pra cada andar.
Foi assim que a tarde de domingo virou trabalho. Úrsula trouxe da despensa o que tinha, e Sônia subiu e desceu três vezes com o que surrupiou da oficina do quinto andar: alfazema barata, querosene, resina de cola, gordura velha de fritura, óleo de máquina. Puseram tudo na mesa e cheiraram um por um. O difícil não era achar um cheiro, era descartar, porque o cheiro tinha que ser algo que já não estivesse ali. A gordura não servia para o sétimo, onde a cozinha comunitária fritava desde antes de Nadir nascer. O querosene não servia para nenhum andar com gerador próprio. Sobraram quatro cheiros para onze andares, e elas riram. Não tinha o que fazer além de rir.
— Mistura — disse Sônia. — Dois cheiros dão mais que dois andares.
O problema seguinte foi pior e demorou o restante da tarde. Um cheiro dizia o andar. A tinta dizia a virada. Faltava dizer qual passagem, e as passagens não tinham nome porque nunca precisaram ter.
— A que sai da laje do terceiro e vai pro prédio de trás — disse Nadir.
— Essa é a da Bete. Ela mora na entrada há trinta anos.
Nadir escreveu “passagem da Bete” num pedaço de papelão e ficou olhando aquilo. Bete não estava ali e não ficou sabendo.
Depois discutiram onde a passagem da Bete terminava. Sônia disse que terminava na ponte de chapa metálica. Marta disse que a ponte era parte da passagem. Não havia como saber quem tinha razão, porque não havia razão que alguém pudesse dar. As duas entenderam isso devagar, uma de cada vez. Nadir decidiu que terminava na ponte. Marta concordou, serviu mais um café e não falou nada até a noite.
No fim da tarde Úrsula desceu dois andares com um pano embebido em alfazema e voltou vinte minutos depois com as mãos cheirando a flor barata.
— E aí? — disse Sônia. — Onde é que você foi?
Úrsula respondeu. Disse o andar, disse a passagem, disse a virada. As três entenderam, e ninguém precisou perguntar com quem ela estava.
Era a primeira vez.
Sônia riu primeiro. Depois, riram as quatro juntas, alto, como quem ri de qualquer bobagem. Lá embaixo, no térreo, Nilo ergueu a cabeça sem saber por quê.

Dias depois, quando estava feito, ela levou Nilo para passear e aprender. Ele estava feliz durante aqueles dias e não sumia havia quase uma semana. Ela lhe mostrou as pinturas no prédio. Ele cheirou a parede bem de perto. Desceram alguns andaimes e ela mostrou outra marca, dessa vez com cheiro bem diferente. O garoto cheirou de novo, ficou olhando por mais alguns segundos e quis continuar.
Ela mostrou a passagem da Bete.
— É um nome bom — ele disse. — É o que eu lembro quando passo por aqui.
Nadir desceu ao térreo e pediu para o garoto subir até a casa deles e voltar. Passaram-se trinta minutos, Nilo não apareceu. Ela não saiu do lugar, com medo de não encontrá-lo mais. Em algum lugar lá em cima, a cabecinha descabelada despontou da varanda, olhou para baixo e retraiu. Dez minutos depois, ele apareceu no térreo, abraçou a vó e sorriu.
— Eu errei uma virada, vovó, mas consegui achar o caminho.
Ele estava contente, o sorriso ia quase de orelha a orelha. Ela voltou com ele para casa, esperando o menino dar as direções, que ela já sabia se estavam certas ou erradas. Nilo errou uma vez, se irritou, mas um minuto depois corrigiu e voltou a sorrir. Ela sorriu de volta, sem saber por que sorria.
No próximo fim de semana, as quatro mulheres estavam na casa de novo. Nilo havia saído, como disse que faria. Passaram horas, conversando, bebendo café, comendo grãos. Alguém perguntou como Nadir se sentia.
— Não sei… Preocupada?
Úrsula estendeu a mão até o joelho dela e fez carinho.
— Deve estar perto. Está quase na hora combinada.
O sol se punha atrás dos níveis e armações, e a luz entrava em quadrados pelo vão das estrutura. O silêncio começava a pesar na sala, e Nadir sentiu a inquietação das outras. Ninguém quis dizer que a hora havia passado.
Marta se levantou, completou a xícara com café e não bebeu. Ficou olhando os círculos no líquido preto. Ela começou a falar algo, mas a frase morreu, e ninguém pediu para ela terminar. Nadir percebeu que evitava olhar para a porta, olhou de relance e virou-se para as iscas de grão na mesa. Ela contou quantas iscas, sem perceber. Elas reagiam a cada som que veio do corredor e depois voltavam a fazer o que quer que estivessem fazendo antes.
A porta se abriu devagar. Nilo entrou saltitante, sorriu para as mulheres e correu para a cadeira da avó.
— Viu, vó? Eu consegui! Só eu consigo fazer isso — ele a abraçou, soltou e correu para o seu quarto. A voz veio distante e abafada. — O grande explorador Nilo!
As mulheres se entreolharam em silêncio por um segundo, depois caíram no riso ao mesmo tempo. Elas ouviram suas brincadeiras animadas no quarto, com os brinquedos velhos. Nadir estava prestes a chorar.
— Esse menino… — falou Sônia, e não terminou.
Elas retomaram seu encontro, o café e a comida, revigoradas com o retorno de Nilo. Ele voltou na sala uma ou outra vez depois, viu que comemoravam, sorriu e voltou a brincar, sem dizer nada.

Na Doca, a chuva fina misturava o cheiro da terra úmida com a fumaça fedida do caminhão. Damião estava de pé, esperando a carga. Ele olhava para o símbolo pintado no pilar.
— O que é isso?
Nadir olhou para onde ele apontava.
— Ah, é só um símbolo bobo que pintamos para o Nilo achar o caminho pra casa.
Não era segredo, e Damião era de fora, ele não teria problema nenhum com aquilo. Ele ficou parado olhando o símbolo por quase um minuto antes de responder.
— Vocês fizeram um mapa?
— Sim.
— Posso ver?
— Está com Nilo. É só um pedaço velho de papelão.
— Você consegue fazer uma cópia?
Ela parou e olhou para o homem de lugar nenhum.
— É que, com um mapa, eu posso entregar a mercadoria sem guia. Fica mais barato pra todo mundo. Eu posso pagar.
— Quanto?
— Cinco sacas, ou o equivalente em dinheiro.
Era uma boa oferta. Ainda mais por um pedaço de papelão que ninguém ali usava. Ela precisava do dinheiro. Nilo ganharia um brinquedo, ela poderia consertar o ventilador para a época de calor que chegava.
Ela confirmou, estendeu a mão e hesitou por meio segundo. Damião fez o resto do caminho, agradeceu e deu o dinheiro na hora. Algumas horas depois ela voltou com um pedaço de papelão cheio de rastros finos de tinta.
Uma semana depois o caminhão parou no térreo da Doca, desceram dois Intactos, cada um com uma saca presa nas costas. Eles não esperaram ninguém vir receber. Nenhum Intacto havia entrado na Mancha sem guia antes. Cada um tinha um papelão na mão, e com os olhos fixos no mapa viraram uma esquina, subiram os andaimes e desapareceram numa curva do prédio.
Alguém na Doca assobiou e riu.
— É a melhor notícia em tempos. Menos trabalho pra gente.
Os outros confirmaram e riram. Voltaram a conversar besteira. Nadir olhou para o lugar onde os entregadores sumiram, olhou para as mãos vazias. Os outros continuaram conversando e organizando o estoque.
— A Bete morreu ontem — algum funcionário falou. Nadir se lembrou da passagem da Bete.
Nadir saiu da Doca, olhou para o céu cinza que pingava como um teto furado, depois para o prédio do lado, onde morava. Procurou a janela de casa. Contou os andares.
Nunca havia feito isso, e também não precisava fazer. Ela sabia onde morava, sabia sem precisar de mapa. Mas contou mesmo assim.
Nilo estava ali em casa. Na última semana, havia subido a escada dezenas de vezes.